Outro dia escrevi sobre os especialistas da própria experiência. E hoje, rolando o feed do Instagram, chegou pra mim uma pessoa famosa que falava sobre saúde mental e trabalho. Dizia que muito antes da NR-1, a norma que passou a tratar dos riscos psicossociais no trabalho, ela já falava sobre o tema. E dizia ela, como se isso fosse uma descoberta, uma ousadia, uma espécie de pioneirismo.
Hoje, parece que vivemos uma corrida pelo título de “primeiro”. Todo mundo inventa um método, um conceito, uma nova forma de dizer ou fazer o que já vem sendo dito e feito há décadas. O problema é quando a estética da novidade encobre a história e apaga o que veio antes.
Porque, se formos honestos com a memória, veremos que a discussão sobre saúde mental e trabalho é antiga. Muito mais antiga que qualquer trend sobre “bem-estar corporativo”.
Entre os inúmeros autores que se dedicaram ao tema, destaco dois deles: Christophe Dejours, por exemplo, publicou seu primeiro livro sobre o tema em 1980, “Travail: Usure Mentale”. Sete anos depois, chegou ao Brasil sob a tradução “A Loucura do Trabalho”, obra emblemática que marcou o campo da psicodinâmica do trabalho e segue sendo referência até hoje.
No Brasil, Maria Elizabeth Antunes Lima (que inclusive foi minha professora na UFMG) já se dedicava sobre o tema desde os anos 90, discutindo de forma crítica a relação entre o adoecimento psíquico e as condições de trabalho. Dentre suas inúmeras produções, destaco “A polêmica em torno do nexo causal entre distúrbio mental e trabalho” e “A psicopatologia do trabalho”.
Portanto, muito antes das redes sociais se transformarem em palco para discursos sobre “saúde mental corporativa”, já existia um campo sólido de pesquisa, prática e reflexão sustentado por psicólogos, pesquisadores e trabalhadores atentos a esse vínculo entre sofrimento e organização do trabalho.
É compreensível que o tema tenha ganhado visibilidade nas redes, afinal, ele toca a todos nós. A diferença é que, naquela época, o interesse não era mercadológico. Era ético, clínico e político.
Hoje, o mercado parece ter descoberto a expressão “saúde mental no trabalho”. Empresas, consultorias e influenciadores falam disso com uma facilidade quase perigosa, muitas vezes reduzindo o sofrimento a slogans de produtividade, resiliência ou “propósito”. E é aí que mora o risco: o de transformar uma questão profunda e coletiva em um produto leve, vendável e descomplicado: um discurso bonito para o feed.
Mas nós, psicólogos, já sabemos há muito tempo: saúde mental e trabalho não são pauta nova, não são moda, não são tendência. São uma construção longa, sustentada por décadas de estudo e por práticas clínicas comprometidas com a dignidade do trabalhador.
Por isso, vale repetir: cuidado com o discurso bonito na internet. Cuidado com as clínicas instagramáveis, os métodos exclusivos e as promessas de pioneirismo. Existem pessoas muito boas em marketing, mas daquilo que elas se dizem especialistas, será que são?
Autora: Marina Silveira

