Até onde podemos ir com a ficção? Será que a ficção por ser ficção é suficiente para justificar uma lógica imperialista de dominação cultural?
Até hoje, eu nunca assisti o filme Gods Of Egypt. O motivo é simples, cansei das mentiras de Hollywood. Os egípcios antigos não eram brancos. Eram pretos como eu, alguns até mais que eu.
Mas isso, não importa, assim como não importa que Jean Claude Van Damme seja pintado como o maior lutador de Kung Fu ou Karate, assim como os ninjas legais são os americanos, assim como o herói shaolin é um americano, assim como também o Tom Cruise ser o último Samurai não importa. Isso não importa, não incomoda ninguém. Agora uma pequena sereia, personagem de ficção ser preta, aí sim!! É um problema.
Há duas dimensões nesta polêmica. A primeira é esta que acabei de evidenciar. A apropriação cultural e como o racismo atua em pano de fundo na psique coletiva. Quando é um branco interpretando personagens asiáticas, ou africanas, vestindo culturas alheias, é exótico, é legal, não parece bamba. Mas quando vai no sentido contrário, aí sim, cria um bug.
A segunda dimensão é que eu acredito que a ficção tem uma dimensão política, cultural. Com a ficção, somos capazes de normalizar coisas absurdas, capazes das piores manipulações mentais. Um ator branco jogando o papel do Pantera Negra como isso te faz sentir? O problema é que o ocidente já normalizou tanto a apropriação cultural, já alienou tanto o mundo, pra se fazer passar pelo que ele não é que agora, nos fazer passar pelo que não somos em nome da ficção é aceitável.
Eu só sei de uma coisa, não são referências africanas que faltam para que criemos histórias incríveis de sucesso com sereias pretas, africanas no seu modo de ser onde nossas pequenas possam além de reconhecer uma preta, se espelharem como as africanas que elas são. O que nos falta não são referências, é nossa falta de empenho em nos valorizar e valorizar nossa herança que é o maior viveiro de criatividade do mundo. Voltem para casa.


