Não iria abordar este posicionamento. Porém…
algumas pessoas que são importantes para mim me procuraram para falar sobre o texto de Douglas Barros publicado pela Boitempo em 21 de janeiro de 2026…
Quero dizer para vocês: não leiam! Ou leiam, se quiserem perder um precioso tempo. Li o texto e resumo da seguinte forma: apenas Baboseira com inicial maiúscula.
O título já é midiático: Contra Nego Bispo rsrs. O cara
“extremamente criativo” pegou um conceito importantíssimo para Nego Bispo “contracolonialidade” e o transformou em caricatura. E isso é o texto também de Douglas, uma leitura caricatural de Nego Bispo e de suas ideias.
A crítica feita no texto só apresenta as maiores qualidades de Nego Bispo como deifeitos:
1 – Apontar a raça e o racismo como centrais na produção de desigualdade. Sabemos que em sociedades racistas é assim mesmo. Todos nós sabemos que a raça “chega” primeiro. Há um discurso que tentam nos fazer engolir que diz que: pretos pobres e brancos pobres são iguais. Isso é uma falácia ridícula e tendenciosa – não se enganem, as pessoas que afirmam isso não o fazem por ignorância – é por maldade mesmo.
2 – A centralidade de Nego Bispo na ideia da Cosmogonia afropindorâmica. E é isso mesmo. E o que ele defende e o que eu defendo. Precisamos estar ancorados na ancestralidade.
Quando retiraram tudo das pessoas negras, inclusive a nossa dignidade, foi a ancestralidade que conseguiu manter a nossa vida, a nossa existência.
3 – A centralidade na Oralidade enquanto elemento primordial na construção de conhecimento. Isso é fundamental para Nego Bispo e para mim também. Quem é de tradições de matrizes africanas sabe do valor do conhecimento oral. A oralidade é o tempo espiralar (isso muda tudo – o pensamento dos confluentes também é espiralar – por isso que é infinito e está sempre caminhando pelas bordas – minha avó dizia: _ Menino, coma o mingau quente é pelas beiradas – quem não passou por encruzilhadas não sabe escolher caminhos – minha avó e Nego Bispo dizem), é a memória da ancestralidade e é o motor da nossa existência.
Só quem se sentou no chão para ouvir um mais antigo falar sabe o que é isso. Só quem se calou profundamente e respirou até devagar para receber a mensagem de um Encantado sabe o que estou dizendo.
Enfim, Douglas não me surpreende desde o fatídico livro sobre o identitarismo – em uma tentativa desesperada de minorizar a potência da luta pela confluência. Ele não é um ignorante, uma pessoa que não é dotada de inteligência – é mal-intencionado mesmo.
Temos várias fotos do Nego Bispo na internet.
Então vamos para a semiótica… Qual o sentido da escolha da foto? Em um texto que se apresenta com Contra Nego Bispo, a foto faz todo sentido. Apresenta um senhor sentado em uma cadeira de balanço como quem não tivesse nada para fazer, em repouso, em descanso absoluto e inerte. A calça com remendo. O ar de nenhuma combatividade.
Porém, se pensamos em Nego Bispo e na sua fala potente, a imagem que se apresenta não poderia ser lida assim. Ele era combatente até mesmo quando defendia a necessidade de descanso, de vadiação – em profunda confluência com o que defende Senhor Zé Pilintra “Trabalhar pra quê? Se eu trabalhar eu vou morrer”.
Douglas tenta atacar o Nego Bispo da foto, achando que, por ele estar fisicamente morto, seria algo fácil – o senhorzinho inerte em sua cadeira de balanço.
Contudo, não é assim que funciona, Douglas. Nego Bispo se encantou e suas ideias permanecem. O que ele fez foi extremamente inovador – e foi inovador por estar fundado exatamente na ancestralidade que você critica. Durante um tempo me perguntei como nós, pessoas negras, permanecemos aqui apesar de tantas estratégias de aniquilação do nosso povo: a resposta que fica é só uma – a ancestralidade é o poder maravilhoso que nos protege. E existe nessa arma um código que só os que realmente são reconhecidos pela sabedoria ancestral podem acessar.
Nego Bispo – Eterno, Espiralar – começo, meio e começo.
Autor: Natalino Oliveira

